Leia os testemunhos de vida de quem recuperou
connosco
+ Manuela
A Odessa é mais que um centro onde se aprende a viver sem drogas, pois isto é a parte mais fácil do programa. É a casa onde dei os primeiros passos, isto sem saber que iria conhecer um programa que se chamava Doze Passos, mas vamos começar pelo princípio.
Cheguei totalmente derrotada, cansada da vida, desprovida de sentimentos, oca, vazia e só pedia que me injectassem a força suficiente para enfrentar a vida. Embora me rendesse totalmente ao programa e me tivesse entregado nas mãos dos conselheiros, o meu percurso não foi fácil. Foi-me difícil admitir muitas coisas, já que a negação era enorme. Embora a minha vida estivesse totalmente desgovernada, atribuía sempre as culpas às drogas, não queria ver que o verdadeiro problema era eu. Um dia, um dos conselheiros disse-me que iria acabar com a cocaína no mundo, pois assim eu já podia descansar e, eu achei a ideia óptima, tal era a negação. Depois acreditar que havia algo que me iria devolver á sanidade, foi outra carga dos trabalhos. Disseram-me para fingir para acreditar. Mas eu ou acredito ou não, fingir nunca. Até que um dia, um conselheiro me disse: -Vês o vento? Mas sentes? Então existe. Comecei a sentir um toque muito subtil de algo superior. Por vezes até me sentia iluminada e, certas coisas da minha vida começaram a fazer um certo sentido. Depois entregar a vontade ao poder superior, isso é que foi difícil. Lembro-me que ao fazer este passo disse que a maior dificuldade que tinha era ver para crer, como S.Tomé. Mandaram-me para alta terapêutica e, aí sim, entrei e senti o que era recuperação. Recuperação é muito mais do que viver sem drogas. É uma vida digna de se viver. É sentir uma garra que não tem palavras. Faltava o 4º e o 5º Passo, que para mim foram a viragem total, pois ao reconhecer a natureza exacta das minhas falhas agora só falho se quiser.
Nestes primeiros passos o crescimento foi enorme, mas todo este esforço deve-se em grande parte aos conselheiros desta casa que começaram a acreditar e a apostar em mim muito antes de eu própria. A eles devo a minha vida. São 3 os conselheiros desta maravilhosa casa. São como um triângulo, só é perfeito porque todas as partes são iguais. Completam-se. São um trio fantástico. Para além da minha vida, devo-lhes a qualidade da vida que tenho neste momento. Atingi um patamar de felicidade que nunca tive na vida. Sei graças a eles o que devo e o que não devo fazer para continuar a ter equilíbrio na minha vida. São pessoas sempre disponíveis para ajudar e, quando digo sempre disponíveis, é mesmo sempre, pois houve alturas em que cheguei a ter duas terapias individuais por dia e, isto sempre com a maior paciência e carinho do mundo para me aturar. E, quando digo aturar é mesmo assim pois às vezes sou muito chata, mas eles estavam sempre ali como uns pais a proteger as suas crias. A eles um grande beijo do fundo do coração, pois neste momento sinto-me uma mulher com M grande e uma mãe também com M grande. E, para terminar só mais uma coisinha: se resultou para mim que sou uma cabeça dura, resulta para todos.
+ Pedro
A minha vida estava um caos, desestruturado interiormente e com falsas crenças de que o trabalho que desempenhava, a casa que habitava, o carro que tinha e a família á qual escondera os meus consumos eram motivo para me sentir um elemento útil da sociedade. Mas não, eu não conseguia esconder isso de mim e sabia que aquele caminho de compulsividade galopante ir-me-ia fazer perder tudo. Já tentara tudo aquilo que me era permitido para encontrar um modo de vida saudável, desde desintoxicações a internamentos, desde mudanças geográficas de cidades a promessas vezes sem conta que queria um novo modo de vida. Mas estas juras falsas, amarguras e ilusões não passavam disso mesmo, pois a desonestidade sempre vinha ao de cima e pensava que sózinho era capaz. Até ao dia em que resolvi pedir ajuda... de forma honesta, pela primeira vez( algum dia teria que ser) e sem saber como nem porquê, estava a ser levado de carro para este Centro de Tratamento onde cheguei após mais um dia de excessivos consumos. Desconhecia aquilo que me esperava, já tinha feito outros tratamentos com este modelo de terapia e estava descrente, mas desta vez havia algo diferente que não sabia explicar, e não sabia mesmo pois não estava habituado a ser honesto comigo mesmo nem com os outros e agora estava a sê-lo, pela primeira vez estava a sê-lo. Era o príncipio da minha rendição a todo o consumo de drogas e alcool e isto tudo apenas porque o sentimento de esperança neste Centro era avassalador, não me pediram nada a não ser ser eu mesmo...e a confiar! E eu fi-lo. Terminar o tratamento tornou-se o meu único objectivo e procurei esquecer todo o mundo exterior, queria arrumar a casa interior para saber tirar proveito da vida. E apesar do tempo se ir passando não consigo esquecer o carinho recebido, um abraço forte, uma lágrima e um sorriso, as belas refeições dotadas de excelente gastronomia regional, os passeios pelo campo, os jogos de futebol assistidos em conjunto, as amizades eternas, as terapias familiares e sobretudo a limpeza do meu passado do qual eu não me libertara nunca e me faziam sentir o pior da espécie humana. Trouxe daqui um manancial de ferramentas para aplicar num novo projecto de vida. Estava expectante para recomeçar a viver, mostraram-me uma luz ao fundo do túnel, embora eu ainda não soubesse distinguir se era um combóio que se aproximava ou se era a luz da liberdade. Mas aprender a confiar já era um dado adquirido, e fui á luta. Com muito custo desisti do trabalho onde estava antes do internamento pois este era perigoso para a minha recuperação, decidi voltar a estudar e vou terminar daqui por uns meses um curso superior que já tinha metido na gaveta dos projectos falhados, a minha relação familiar está melhor que nunca, tenho hoje verdadeiros amigos que vão até ao fim do mundo para que eu possa ultrapassar um obstáculo da vida, encontrei algo que não sabia possível sentir: o amor verdadeiro, a paixão, a ternura dada e recebida. Hoje afirmo convictamente que encontrei a luz da liberdade, e apenas tive de ser eu próprio e confiar, sei que não estou sózinho se quiser ter uma perspectiva positiva da vida, alguém me ajuda sempre a encontrar o caminho correcto, se eu quiser e se tiver dúvidas; encontrei em mim uma pessoa com imenso valor que eu sempre negligenciei, e sinto-me realmente útil na sociedade que habito.
+ Ricardo
Entrei na Odessa derrotado, vazio, sem nenhuma esperança ou caminho. Tinha admitido a impotência perante as drogas e a perda de controle da minha vida, graças a ter já uma consciência do modelo Minnesota. Com experiência de anteriores tratamentos falhados, insisti em desafiar a doença da adicção e a tentar controlar o meu uso de drogas. Cada vez foi pior, maiores consumos e mais drogas. Desrespeitei as pessoas que mais amava, os meus valores e a mim próprio. Desafiei a morte, a minha sanidade mental e perdi a vontade de viver.
Com alguma experiência de tratamentos, julguei saber o que ia encontrar na Odessa, mas mais uma vez enganei-me. Notei as diferenças mal entrei, o trato pessoal, a postura da equipa terapêutica, a assistência médica e as regras da casa. Tudo era diferente do que esperava e cedo percebi que estava num sítio diferente, apesar de me sentir perdido. Com o passar do tempo fui percebendo que estava no sítio certo e a acreditar que, sem dúvida, não tinha lá ido parar por acaso. Com as várias dinâmicas da casa criadas pela equipa e pelo próprio grupo de pacientes, fui percebendo as consecutivas tentativas falhadas de largar as drogas e entrar em recuperação. Sim, porque eu não quis só parar de usar drogas, eu quis um novo modo de vida e uma perspectiva diferente em relação á vida. Acima de tudo tive que compreender e aceitar que tenho uma doença, que posso controlar através de vários mecanismos que me foram mostrados na Odessa. Acima de tudo o que envolve o modelo Minnesota, está a relação interpessoal que se sente na casa, a dedicação, a aposta e o profissionalismo de toda a equipa, mais visível nos Técnicos de Aconselhamento, devido á maior ligação diária com os pacientes.
Neste momento tenho uma nova vida, que se vai construindo dia a dia e um passo de cada vez e sei que tenho o apoio e ajuda da equipa sempre que precisar. Hoje posso dizer com orgulho que estou em recuperação, que tive e tenho uma relação muito especial com esta casa e que estou grato a estas pessoas por voltar a sorrir novamente. Obrigado a todos!
+ Silvio
Passou um pouco mais de um ano desde que entrei na Odessa, e hoje, por brincadeira, mas sempre com uma base de seriedade costumo dizer para mim mesmo que a minha vida se divide em AT e DT, Antes de Tratamento e Depois de Tratamento. Entendo que, para quem não tem conhecimento da mecânica de um tratamento a dependências e da implicação do mesmo na vida de um paciente, esta definição possa parecer exagerada, contudo, a mim ela apresenta-se repleta de sentido e inundada de sentimento. Foi no início do outono de 2009 que subitamente vi a minha vida ruir em todos os sentidos que, julgava, ainda me restariam.Contudo, viria a ser neste centro que, mais tarde me aperceberia, entre muitas outras coisas, de que a minha vida á muito ruía á minha volta, e que eu passava apenas o tempo, os dias, semanas , meses, anos a colar os seus pedaços, a fingir e a imaginar um mundo que ainda estava funcional e perfeitamente governável e onde eu, no centro desse mesmo mundo dirigia a vida submerso numa adicção de quase duas décadas que á muito me consumira a força e vontade de viver. Orgulhoso como sempre fui julgava ser capaz de parar quando e sempre que assim o desejasse, escondia o consumo que fazia de todos quanto me rodeavam e isolava-me mais e mais a cada dia que passava. As minhas relações sociais e familiares deterioraram-se a tal ponto que deixaram praticamente de existir, a minha relação com aquela que hoje entendo ter sido a mulher da minha vida, definhava e falia a cada gole que bebia,a cada garrafa que emborcava, sem sentido, sem sentir...O meu emprego, o meu orgulho de anos de esforço e de muita dedicação deixara há muito de fazer sentido, acumulavam-se as queixas de clientes, as despesas tornaram-se ao longo dos anos e fruto dos erros e insanidades cometidas sob o jugo do álcool, absolutamente esmagadoras. A certa altura as dividas surgiram e foram crescendo sem controlo, mas quando alguém em meu redor me alertava ou tentava dar-me um qualquer sinal do meu estado, a resposta pronta, ofensiva e normalmente sem deixar espaço para argumentação era a arma que defendia o meu egoísmo insano. Porém, toda esta vida incontrolada chegou a um fim, e foi nesse momento em que me vi, na exacta medida dos sapatos que calçava, que a impenetrável fortaleza de orgulho e negação ruiu e, pedi finalmente ajuda. Poucos dias depois encontrava-me aqui, na Odessa, pela primeira vez em tratamento, pela primeira vez a tomar consciência de um programa, daquilo que representa uma adicção, do que era um método de tratamento, enfim pela primeira vez para tudo o que a conhecer-me e á minha doença dizia respeito. Aqui encontrei realidade, que á muito a minha vida deixara de ter, regras e condutas a ser seguidas, a que já me havia desabituado, mas encontrei algo mais,algo que eu sempre julguei impossível da parte de outra pessoa, compreensão. Aquilo que muitas vezes me impediu de falar com alguém era o facto de me julgar incompreendido e único, e foi aqui na Odessa que rapidamente descobri que não só não estava sozinho como quem me acompanhava tinha exactamente as mesmas dificuldades, problemas , sentimentos e emoções que eu, eram os meus companheiros de tratamento, o meu grupo de terapia, as pessoas com quem aprendi a me identificar e com quem me aprendi a conhecer. Logicamente que estas pessoas não funcionavam nesta casa sem uma tutela, e através da batuta de três técnicos terapeutas fui mudando a minha forma de ver a vida, de sentir as minhas emoções e de olhar para o meu interior, para o meu passado e para o meu presente. Fui iniciado por estes profissionais, a quem aprendi a respeitar e admirar pela dedicação e devoção que vi entregarem durante a minha estadia nesta casa a todos quanto nela estavam, numa viagem de auto descoberta e conhecimento que hoje reconheço como sendo algo do mais precioso que posso ter. Sei que, perante a gratidão que sinto por estes fantásticos terapeutas, quaisquer palavras de enaltecimento do seu trabalho e da forma como colocam em funcionamento o método que utilizam para tratamento soam sempre a pouco e não expressam devidamente o que sinto e por isso deixo essa expressão de gratidão apenas presente nos fortes abraços que partilho com eles de cada vez que nos reencontramos. Umas palavras também para os restantes funcionários da casa, sem sombra de duvida profissionais dedicados e conscientes da importância das funções que exercem e que por isso, nunca deixaram de ter uma palavra, um gesto, um sinal de incentivo e de esperança para me ajudar a ultrapassar as dificuldades inerentes a um programa que por muito bom que seja se depara sempre com a negação de que é pródiga a doença que possuo. Hoje, um pouco mais á distancia, relembro essas semanas que chegaram a parecer infindáveis, como as mais proveitosas da minha vida adulta, aquele tempo que por ser tão intensamente vivido, parecia não mais ter fim é hoje uma memória acarinhada por mim e cada minuto passado neste centro é recordado como uma lição, um ensinamento para esta que agora posso chamar de vida . Não tenho presentemente uma vida perfeita, não tenho certamente tudo o que desejei ou sonhei, mas aprendi a viver com o que me é colocado á disposição por um Poder Superior que hoje procuro entender e seguir. Aprendi a viver no presente, apreciando o meu dia como ele se me apresenta e não lamentando o que gostaria que ele fosse, aprendi a estar grato pelo que me acontece diariamente e a não lutar para que tudo tenha de ser da forma que eu quero, acima de tudo aprendi que ser feliz e ter paz de espírito depende apenas de mim e de como me relaciono com o mundo e não do que possuo ou detenho. Termino apenas dizendo que acredito hoje completamente no tratamento e no programa que aprendi nesta casa, sou uma prova do seu funcionamento, só por hoje, e escrevo estas linhas num dia que me foi bastante complicado, com acontecimentos que, sem sombra de duvidas á pouco mais de um ano me teriam levado a usar, a procurar resposta para os problemas no local de sempre, no local onde nunca encontrei uma única solução, mas em vez disso estou aqui, sentado, aceitei os problemas, fiz o que pude para os resolver e termino o meu dia a escrever esta carta, com a tranquilidade de sentir o dever cumprido.
Obrigado.
+ Isabel
Depois de várias tentativas falhadas, entrei nesta casa em 2008 para mais uma vez tentar sair da vida de destruição da qual fazia parte à 30 anos. Mas, iria ser um novo falhanço. Nos meses seguintes cheguei ao fundo do poço e, simplesmente não conseguia já funcionar como um ser humano. Em completo desespero, telefonei para esta casa que me tinha acolhido meses antes, pedindo ajuda pois estava a morrer. Estenderam-me de imediato a mão, mas eu estava completamente desacreditada, não acreditava que fosse possível sair daquele mundo em que vivia á tantos anos. Sempre tive uma personalidade forte e foi ainda mais vincada com o uso, aqui aprendi a relacionar-me com os outros pois nunca tive que dar satifações a ninguém do que fazia ou não fazia, aprendi a gostar de mim e, acima de tudo, a aceitar-me como pessoa. Não foi fácil, sentia raiva, muita raiva, mas acho que no fundo essa raiva era simplesmente dos anos que tinha perdido e, que me tinham destruido fisica e emocionalmente, levando-me ao ponto de desespero em que me encontrava. A esta equipa maravilhosa de profissionais que, acima de tudo amam o que fazem e tratam cada paciente com carinho, devo-lhes uma enorme gratidão. O difícil não é deixar de usar drogas. Porque muitas vezes o fiz. O difícil é aprender a viver sem elas. Nas terapias de grupo em que partilhava as insanidades e os danos que tinha cometido com o meu uso, as identificações que ouvia faziam com que eu percebesse que não estava só. Que existiam outros como eu. Os trabalhos escritos, que me custavam tanto a fazer, não por ter de escrever mas, pelos sentimentos que daí advinham. Ter que pôr tudo especifíco no papel. Com tudo isto e, com a ajuda do meu conselheiro, que considero hoje um amigo, e o meu grupo, aceitei que tenho uma doença primária. Aqui foram me dadas as ferramentas necessárias para eu aprender a lidar com a minha doença, a adicção. Hoje em recuperação, tenho de lidar com a realidade. Mas acima de tudo, com a consciência de que para tal não preciso de usar qualquer tipo de drogas. Acontecem coisas negativas e positivas. Mas, acredito que cada dia que passa cresço um pouco mais. Eu encontrei a pequena "minha Bíblia" a seguir, neste programa de Minnesota os Doze Passos. Tenho a certeza que se estiver atenta e seguir o programa eu não preciso de drogas para viver.
Oração da serenidade
Concedei-me, Senhor, a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".
MUITO OBRIGADO ODESSA E MUITAS + 24
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